Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, realizado neste domingo (25), e garantiu mais quatro anos de governo. Com 100% das urnas apuradas, Lula obteve 51,79% dos votos válidos, revertendo a vantagem conquistada pelo adversário no primeiro turno. O resultado foi anunciado em meio a uma das maiores controvérsias jurídicas do processo eleitoral, após uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin estender o horário de votação até as 19h.

A disputa foi marcada pela polarização política, pelo equilíbrio entre as candidaturas e por questionamentos sobre a condução da votação. A decisão judicial, tomada no fim da tarde, provocou críticas e abriu discussões sobre os limites da atuação do Judiciário em um processo organizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Decisão de Zanin provoca controvérsia

A prorrogação do horário de votação ocorreu após um pedido apresentado pelo PT por volta das 15h46. O partido apresentou informações adicionais às 16h57, e a liminar foi concedida por Zanin próximo das 17h, horário previsto para o encerramento da votação.

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A decisão provocou questionamentos porque alterou o horário de encerramento das seções eleitorais em todo o país, embora o pedido estivesse relacionado a problemas registrados em localidades específicas. O TSE é o órgão responsável pela organização das eleições brasileiras, e a medida levantou dúvidas sobre a competência para modificar as regras durante o andamento da votação.

No meio jurídico, surgiram interpretações de que a decisão poderia abrir espaço para questionamentos judiciais sobre a validade do processo eleitoral. Isso não significa, contudo, que o resultado tenha sido anulado ou que exista uma decisão definitiva reconhecendo irregularidade na eleição.

A controvérsia acrescentou tensão a uma disputa que já vinha sendo acompanhada de perto por causa da pequena diferença entre os candidatos e da mobilização de suas bases eleitorais.

Lula reverte desvantagem do primeiro turno

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos, impondo ao presidente a necessidade de reorganizar a campanha para tentar conquistar eleitores que haviam votado em candidatos eliminados.

A dificuldade já aparecia nas pesquisas eleitorais. Levantamento da Quaest divulgado em 21 de outubro apontou Flávio com 45% das intenções de voto, enquanto Lula registrava 44%.

Após o resultado da primeira votação, Lula reconheceu problemas na organização de sua campanha. Em reunião com parlamentares aliados, afirmou que aquela havia sido a campanha menos organizada de sua trajetória eleitoral desde 1989.

Na etapa final, o petista buscou ampliar sua frente política e reforçar a mobilização de sua base tradicional, enquanto tentava atrair eleitores de centro. Flávio, por sua vez, recebeu apoio de partidos de centro-direita, governadores e lideranças que haviam disputado o primeiro turno.

A virada de Lula garantiu a continuidade do PT na Presidência, mas não eliminou as dificuldades políticas que o governo deverá enfrentar a partir de 2027.

Medidas econômicas ganharam força na reta final

Depois de terminar o primeiro turno atrás do adversário, Lula intensificou a divulgação de medidas econômicas e sociais. Entre as iniciativas destacadas durante a campanha estavam mudanças relacionadas às dívidas de microempreendedores individuais (MEIs), propostas de renegociação de débitos bancários e reajustes em benefícios sociais.

Uma das medidas mencionadas foi o perdão de R$ 15,5 bilhões em dívidas de MEIs com a União, com potencial de beneficiar cerca de 3,6 milhões de microempreendedores. Também foi anunciado um programa de renegociação de dívidas bancárias com previsão de descontos mínimos de 90%.

Outra pauta incorporada à estratégia eleitoral foi o fim da escala de trabalho 6x1, que prevê seis dias de trabalho para um de descanso. A proposta ganhou espaço no debate político após articulações entre o governo e o Congresso Nacional.

As medidas foram apresentadas em um momento de disputa acirrada, no qual o governo buscava melhorar sua posição junto aos eleitores e responder ao avanço da candidatura do PL. A oposição, por sua vez, criticou iniciativas anunciadas próximo à votação e questionou a influência das ações governamentais sobre o cenário eleitoral.

Congresso fortalecido pela oposição será desafio para Lula

Apesar da vitória presidencial, o próximo mandato começa com um Congresso Nacional em que a oposição terá peso significativo. O PL deverá iniciar a legislatura de fevereiro de 2027 com a maior bancada na Câmara dos Deputados e no Senado.

A legenda elegeu 121 deputados federais e 19 senadores em outubro. A composição prevista amplia a capacidade de articulação do partido e fortalece a oposição às propostas do governo petista.

A federação formada por PT, PCdoB e PV terá 88 deputados federais, dos quais 70 são do PT. Somadas às bancadas de PSOL-Rede, PSB e PDT, as legendas tradicionalmente associadas à esquerda e à centro-esquerda chegam a 124 cadeiras, cerca de 24% da Câmara.

Partidos de centro também terão influência decisiva nas votações. União Brasil e PP, que integram a federação União Progressista, elegeram 87 deputados. PSD, Republicanos e MDB terão, respectivamente, 43, 41 e 36 representantes.

Com essa distribuição, Lula precisará negociar com diferentes forças políticas para aprovar projetos e evitar derrotas legislativas. O desafio será ainda maior para propostas que exigem mudanças constitucionais, que dependem de três quintos dos votos em dois turnos de votação em cada Casa: 308 deputados e 49 senadores.

Presidência do Senado entra no centro da disputa

O comando do Senado deverá se tornar um dos principais pontos de negociação política para a próxima legislatura. O PL pretende disputar a presidência da Casa, e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, aparece entre os nomes cotados.

A escolha é estratégica porque o presidente do Senado influencia a definição da pauta legislativa e tem papel importante na tramitação das indicações de ministros para o STF.

Lula poderá indicar novos integrantes para a Corte conforme as vagas forem abertas por aposentadorias ou outras circunstâncias previstas na legislação. O tema tende a ampliar a disputa entre governo e oposição, especialmente diante do fortalecimento do PL no Congresso.

Em abril de 2026, o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias, atual advogado-geral da União, para uma vaga no Supremo. A derrota representou um revés político para o governo, que sinalizou a possibilidade de apresentar novamente o nome após o período eleitoral.

Novo mandato começa sob pressão política

A vitória de Lula assegura a continuidade do PT no Palácio do Planalto, mas o resultado não representa uma vitória sem obstáculos. O presidente terá de lidar com uma oposição fortalecida, negociar com partidos de centro e enfrentar questionamentos relacionados à condução do processo eleitoral.

A disputa de 2026 também demonstrou a capacidade de recuperação eleitoral do petista, que conseguiu reverter a desvantagem do primeiro turno. Ao mesmo tempo, a expressiva votação de Flávio Bolsonaro e o tamanho da bancada do PL indicam que a oposição continuará exercendo influência relevante sobre os rumos da política nacional.

O próximo mandato deverá ser marcado por negociações difíceis no Congresso, disputas em torno das indicações ao Judiciário e debates sobre as medidas econômicas e sociais do governo. A vitória nas urnas garante a Lula mais quatro anos no Executivo federal, mas não assegura apoio parlamentar suficiente para aprovar sua agenda sem concessões políticas.