Moradores de Pirenópolis, na região central de Goiás, cobram melhorias na infraestrutura urbana e nos serviços públicos do município. Entre as principais reclamações estão falhas na coleta de lixo, problemas de saneamento básico, dificuldades de mobilidade, falta de manutenção em espaços públicos e deterioração de equipamentos históricos e culturais.

As queixas foram apresentadas por três moradores que acompanham diferentes aspectos da cidade: a advogada especialista em Direito Público Ynaê Siqueira Curado, o ambientalista e presidente da Associação dos Guias e Condutores da Região dos Pireneus (AGCP), Cristiano Costa, e a cineasta e diretora de arte cenográfica Úrsula Ramos, que vive no município há mais de três décadas.

Embora reconheçam a importância da atividade turística para a economia local, os entrevistados avaliam que o crescimento da cidade precisa ser acompanhado de planejamento e investimentos permanentes. Para eles, os serviços públicos devem atender tanto aos visitantes quanto à população que reside no município durante todo o ano.

Leia Também:

Pirenópolis tinha 26.690 habitantes no Censo Demográfico de 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estimativa populacional para 2026 é de 28.292 pessoas. Com território de aproximadamente 2,2 mil quilômetros quadrados e fluxo turístico ao longo do ano, o município enfrenta o desafio de organizar a prestação de serviços em diferentes regiões.

A atividade turística tem participação importante na economia local. Um levantamento do Observatório do Turismo de Goiás, vinculado à Goiás Turismo, visitou 172 estabelecimentos de hospedagem em Pirenópolis em 2024. O número corresponde aos empreendimentos contemplados pela pesquisa e não representa o total de turistas recebidos pela cidade.

Coleta de lixo e manutenção estão entre as principais queixas

A advogada Ynaê Siqueira Curado considera que a atividade turística não deve ser apontada como responsável pelas falhas nos serviços municipais. Para ela, cabe à administração pública dimensionar a estrutura de atendimento de acordo com as necessidades dos moradores e a variação no número de visitantes.

“Turismo não é problema. Na verdade, se não fosse o turismo aqui na cidade de Pirenópolis, a cidade estaria toda arrebentada, literalmente. O turismo é quem banca a qualidade de vida do povo hoje, porque infraestrutura pública é zero na cidade”, afirma.

Entre os problemas que relata, a coleta de resíduos aparece como uma das situações mais recorrentes. Segundo Ynaê, há ocasiões em que o caminhão não passa nos dias úteis, provocando o acúmulo de lixo nas ruas.

“A coleta de lixo aqui é caótica. E não é só quando tem feriado. Durante a semana tem vezes que o caminhão não passa, o lixo se acumula. Então, não pode falar que é o turista que causa esse problema, porque o problema está na gestão”, diz.

Na avaliação da advogada, a solução passa pela organização do serviço, com definição de rotas, frequência de atendimento e estrutura compatível com a demanda. Ela também aponta problemas na iluminação pública, na conservação das ruas e na manutenção de áreas de uso coletivo.

Ynaê critica ainda a diferença que percebe entre espaços privados e públicos no município. Segundo ela, a falta de conservação de equipamentos municipais acaba transferindo parte dos custos de manutenção para comerciantes e empresários que dependem de boas condições de acesso aos atrativos turísticos.

A advogada também manifesta preocupação com os serviços de saúde. Na avaliação dela, a rede municipal precisa de melhores condições de funcionamento, disponibilidade de equipamentos e políticas que favoreçam a permanência de profissionais na cidade.

Pirenópolis conta com o Hospital Estadual Ernestina Lopes Jaime, unidade da rede estadual que oferece atendimento de urgência e emergência, além de consultas especializadas. A existência do hospital, entretanto, não elimina a necessidade de estrutura adequada na atenção básica municipal, especialmente para os atendimentos de rotina.

Ynaê também cita as estradas rurais utilizadas para chegar a atrativos turísticos. Segundo ela, alguns trechos precisam de melhorias e empresários acabam se mobilizando para realizar intervenções que, em sua avaliação, deveriam receber atenção do poder público.

Ambientalista alerta para saneamento e crescimento urbano

O crescimento urbano sem planejamento suficiente é uma das preocupações de Cristiano Costa. Presidente da Associação dos Guias e Condutores da Região dos Pireneus, ele avalia que a expansão da cidade precisa ser acompanhada de medidas para proteger os recursos naturais e ampliar a infraestrutura.

“A cidade está se desenvolvendo de uma forma muito acelerada, mas não está tendo uma boa coordenação efetiva para que coordene esse desenvolvimento acelerado, principalmente o desenvolvimento urbano”, afirma.

Entre os pontos levantados pelo ambientalista está a cobertura do saneamento básico. Segundo ele, há áreas onde o esgoto e a água servida chegam a cursos d’água que deságuam no Rio das Almas. Cristiano cita trechos dos córregos Pratinha e Lava-pés como locais que, na avaliação dele, precisam de atenção.

O ambientalista defende a ampliação da rede coletora, a fiscalização e medidas para impedir o lançamento irregular de efluentes. A dimensão do problema e as condições dos pontos mencionados precisam ser confrontadas com dados técnicos dos órgãos responsáveis pelo saneamento e pelo controle ambiental.

O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), do Ministério das Cidades, reúne indicadores sobre abastecimento de água, esgotamento sanitário, resíduos sólidos e drenagem urbana. Essas informações podem ajudar a avaliar a cobertura dos serviços e orientar políticas públicas para o município.

Para Cristiano, o planejamento também deve considerar os impactos de novas construções, atividades comerciais e empreendimentos turísticos sobre o ambiente urbano. Na avaliação dele, o desenvolvimento precisa ocorrer com fiscalização e medidas de proteção dos recursos naturais.

Eventos e poluição sonora geram reclamações

A realização de eventos também está entre os temas que preocupam o ambientalista. Segundo Cristiano, festas que avançam pela madrugada podem provocar perturbação do sossego, principalmente em razão das características geográficas de Pirenópolis.

“A cidade é dentro de um vale, então o som fica reverberando nas montanhas, nos muros, em todos, e volta para a cidade”, explica.

Ele afirma que moradores procuram órgãos responsáveis para apresentar reclamações e defende que as regras sobre horários, locais e níveis de ruído sejam efetivamente fiscalizadas.

Na avaliação do ambientalista, o planejamento dos eventos precisa levar em conta não apenas a movimentação turística e a programação cultural, mas também os impactos para quem mora nas proximidades dos locais de realização das festas.

Cristiano relata ainda desânimo entre integrantes de conselhos municipais que discutem questões relacionadas ao turismo e ao meio ambiente. Segundo ele, a demora nas respostas às reivindicações dificulta a participação da sociedade nas decisões sobre o município.

“Quando a gente questiona as coisas, as respostas também demoram”, afirma.

Para o ambientalista, a interlocução entre a administração pública e os representantes da sociedade civil é importante para identificar problemas, acompanhar providências e construir soluções de longo prazo.

Falta de estrutura afeta moradores e visitantes

A conservação dos espaços públicos e históricos também é motivo de preocupação para Úrsula Ramos. Moradora de Pirenópolis há mais de 30 anos, a cineasta afirma que a cidade precisa oferecer condições adequadas de infraestrutura para a população e para os visitantes que chegam ao município durante todo o ano.

“É uma cidade turística que precisa do básico, porque, além de nós, moradores daqui, nós recebemos turistas de todos os lugares do Brasil e do mundo”, afirma.

Entre as dificuldades apontadas por ela estão a falta de banheiros públicos em pontos de circulação turística, a quantidade insuficiente de lixeiras, a iluminação deficiente e a ausência de manutenção em áreas afastadas do Centro Histórico.

Úrsula afirma que a sujeira se torna mais perceptível nos fins de semana, quando aumenta o movimento de visitantes. Por isso, defende a instalação de mais lixeiras, a melhoria da limpeza urbana e campanhas de conscientização sobre o descarte correto de resíduos.

A cineasta também demonstra preocupação com a arborização da cidade. Segundo ela, é necessário ampliar o plantio de árvores e preservar a vegetação existente, tanto pela importância ambiental quanto pela contribuição para a paisagem e o conforto térmico.

“Em vez de plantar árvores, eles cortam”, critica.

Ela defende iniciativas de educação ambiental envolvendo escolas e a comunidade, com plantio de mudas e ações voltadas à preservação da natureza.

Cine Teatro Pireneus é alvo de críticas

Outro ponto levantado por Úrsula é o funcionamento do Cine Teatro Pireneus, equipamento cultural histórico do município. Segundo ela, o espaço não estaria aberto regularmente para exibições de filmes e apresentações teatrais, apesar da importância que atribui ao local para a vida cultural da cidade.

A cineasta afirma que o prédio tem sido utilizado principalmente para reuniões e palestras e questiona a falta de uma programação cultural regular.

“O Cine Pireneu já foi uma coisa belíssima, maravilhosa. O pirenopolino tem a cultura de ir ao cinema e ir ao teatro”, afirma.

Para Úrsula, a reativação do espaço poderia ampliar as opções culturais para os moradores e também para os turistas que visitam a cidade, especialmente durante festivais e eventos tradicionais.

“Eu acho que a Prefeitura tem que abrir o cinema para o povo pirenopolino e para o turista”, defende.

A situação atual do equipamento, o histórico das intervenções realizadas no prédio e a previsão de retomada de atividades precisam ser esclarecidos pela administração municipal.

Intervenções no Largo da Matriz dividem opiniões

A Praça do Largo da Matriz também aparece entre as preocupações da cineasta. Úrsula critica as intervenções realizadas no espaço e afirma que a antiga configuração da praça tinha importância histórica, paisagística e afetiva para os moradores.

“Era uma praça que ficava ali para todos, em frente a um colégio. Então, assim, o Iphan junto com a Prefeitura erraram muito nesse ponto. Nós queremos a praça de volta”, afirma.

A crítica envolve a atuação da Prefeitura e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Para esclarecer as mudanças, é necessário considerar os projetos de intervenção, as autorizações e os documentos técnicos que fundamentaram as decisões.

A moradora também questiona a realização de eventos no Centro Histórico, especialmente quando há música em volume elevado, fogos de artifício e acúmulo de resíduos após as apresentações.

Segundo ela, o barulho pode afetar o descanso de moradores, incluindo idosos, famílias com crianças pequenas e pessoas que precisam de ambientes mais silenciosos.

“Nós não somos turistas, nós somos moradores. Nós recebemos o turista, atendemos de braços abertos. Mas acabar com o sossego da gente também não”, afirma.

Úrsula defende que a cidade encontre alternativas para sediar grandes eventos sem comprometer a tranquilidade da população e a preservação dos espaços históricos.

Trânsito e acessibilidade precisam de atenção

A mobilidade urbana é outro desafio citado pelos entrevistados. Ynaê considera que a circulação de veículos e pedestres precisa ser organizada com base em estudos técnicos, principalmente nas regiões de maior concentração de comércio e visitantes.

A advogada também destaca a necessidade de manutenção das estradas rurais que levam aos atrativos turísticos. Segundo ela, a falta de melhorias pode dificultar o acesso e comprometer a experiência de quem visita a região.

Cristiano, por sua vez, relata dificuldades para atravessar ruas, problemas de estacionamento e calçadas quebradas ou ocupadas por veículos. Para ele, essas condições afetam especialmente pessoas idosas, pessoas com deficiência e quem tem mobilidade reduzida.

“Calçada quebrada, carro parado em calçada. Os passeios públicos têm que ter acessibilidade para pessoas, principalmente pessoas de idade e pessoas com necessidades especiais”, afirma.

O ambientalista também aponta dificuldades no trânsito durante a semana, que, segundo ele, se intensificam nos períodos de maior fluxo turístico. A falta de vagas de estacionamento e as limitações das vias são citadas como fatores que dificultam a circulação no Centro Histórico.

Outro aspecto levantado por Cristiano é a transformação de imóveis residenciais em estabelecimentos comerciais e hospedagens. Na avaliação dele, essa mudança reduz a presença de moradores nas áreas tradicionais e altera a dinâmica cotidiana da cidade.

“Mas a maioria das ruas do Centro Histórico já está toda virando comércio. Não tem mais um morador local no Centro Histórico”, afirma.

A percepção do entrevistado aponta para uma preocupação com a ocupação urbana e a permanência das famílias na região histórica. Para dimensionar essa transformação, seriam necessários dados sobre o uso dos imóveis, o licenciamento de atividades comerciais e a evolução da oferta de hospedagem.

Úrsula também questiona o funcionamento de casas de temporada e defende fiscalização quando houver denúncias de perturbação do sossego. Para ela, o turismo precisa ser compatível com o direito dos moradores ao descanso e à convivência.

Prefeitura é questionada sobre reclamações

As queixas apresentadas pelos moradores envolvem diferentes áreas da administração municipal, desde a limpeza urbana e a manutenção de espaços públicos até a mobilidade, a fiscalização de eventos e a conservação de equipamentos culturais.

As demandas apontam para a necessidade de planejamento contínuo, fiscalização e diálogo com a população. A adoção de medidas também depende de informações oficiais sobre os serviços existentes, os recursos disponíveis e as prioridades definidas pela administração.

A Prefeitura de Pirenópolis foi questionada sobre as reclamações relacionadas à coleta de lixo, infraestrutura urbana, saúde, saneamento, mobilidade e conservação dos espaços públicos. Não há, no material apresentado, respostas oficiais detalhadas sobre os pontos levantados pelos entrevistados.

Cidade se aproxima dos 300 anos

Pirenópolis completou 299 anos em 7 de outubro de 2026 e se prepara para o tricentenário, previsto para 7 de outubro de 2027. A cidade teve origem em 1727, com o arraial de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, ligado à exploração do ouro na região.

Ao longo dos séculos, o município passou por mudanças econômicas e administrativas. A arquitetura colonial, as ruas de pedra, as igrejas e os casarões preservados se tornaram marcas da identidade local. O conjunto histórico recebeu proteção federal do Iphan em 1990.

Além do patrimônio arquitetônico, Pirenópolis reúne cachoeiras, rios, áreas de serra, festas tradicionais e manifestações culturais que atraem visitantes de diferentes regiões do país.

A atividade turística tornou-se parte importante da economia, mas a expansão do setor também amplia as exigências sobre os serviços públicos e a organização urbana. O aumento da circulação de pessoas exige estrutura de limpeza, saneamento, mobilidade, fiscalização e conservação dos espaços compartilhados.

As reclamações apresentadas por moradores colocam em debate como conciliar a preservação do patrimônio histórico e ambiental com o desenvolvimento econômico e as necessidades cotidianas da população.

Para os entrevistados, o desafio é garantir que Pirenópolis continue recebendo visitantes sem deixar de atender quem vive na cidade. A proximidade do tricentenário reforça a discussão sobre o futuro do município e a importância de um planejamento capaz de integrar turismo, infraestrutura, preservação e qualidade de vida.