Até poucos dias atrás, cenas de mísseis cruzando o céu e destroços caindo em áreas urbanas pareciam incompatíveis com cidades como Dubai e Abu Dhabi, símbolos globais de luxo, estabilidade e segurança no Emirados Árabes Unidos. Mas a escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã arrastou o Golfo para um conflito direto, com impactos inéditos na vida cotidiana da região.

No sábado (28/2), forças americanas e israelenses realizaram ataques contra o Irã, que culminaram na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. A resposta veio rápida. Teerã lançou mísseis e drones não apenas contra alvos israelenses e posições militares dos EUA, mas também contra países do Golfo que abrigam bases americanas.

Segundo o governo emiradense, 67 mísseis e 541 drones iranianos foram lançados em direção ao país até a tarde de domingo. Parte foi interceptada, mas 35 drones atingiram o território nacional, deixando três mortos. Um dos óbitos ocorreu na área do aeroporto de Abu Dhabi, atingido por destroços.

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Em Dubai, o aeroporto internacional — um dos mais movimentados do mundo — sofreu danos após o que autoridades classificaram como um “incidente”, que deixou quatro funcionários feridos. O espaço aéreo foi fechado, centenas de voos cancelados e milhares de passageiros ficaram retidos, inclusive brasileiros.

O assessor artístico Ricardo Ferreira, que estava a trabalho em Abu Dhabi, relatou momentos de choque. Ele e outras 16 pessoas tinham retorno marcado para o Brasil no domingo, mas agora aguardam sem previsão. “Fomos pegos totalmente de surpresa”, contou. Do quarto do hotel, ouviu explosões e viu caças e mísseis no céu antes mesmo de entender que se tratava de um ataque iraniano.

Imagens que circularam nas redes sociais mostraram fumaça no porto de Jebel Ali, em Dubai, e explosões próximas à ilha artificial Palm Jumeirah. Destroços atingiram a área do hotel Fairmont e provocaram um pequeno incêndio na fachada do icônico Burj Al Arab, um dos cartões-postais da cidade.

Moradores também relataram tensão. Becky Williams disse ter visto cerca de 15 mísseis interceptadores lançados atrás de sua casa. “É possível ouvir as interceptações acontecendo no ar.” Já Satya Jaganathan, que vive perto do porto de Dubai, afirmou que a situação permanece relativamente calma entre explosões espaçadas, mas “inquietante”, por fugir completamente do padrão da cidade.

Na noite de domingo, um alerta enviado aos celulares orientou moradores a procurar abrigo e evitar janelas diante do risco de novos ataques.

A justificativa iraniana foi direta: países que hospedam bases americanas tornam-se, na prática, extensões do território dos EUA. O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, afirmou que Teerã não busca atacar vizinhos, mas as estruturas militares americanas instaladas neles.

Entre os principais alvos estratégicos estão a base aérea de Al Dhafra, ao sul de Abu Dhabi, que abriga aeronaves da Força Aérea dos EUA, e o porto de Jebel Ali, que recebe navios da Marinha americana.

A escalada não se limitou aos Emirados. No Bahrein, explosões foram registradas próximas à capital Manama, onde fica uma base naval americana. Em Doha, no Catar, mísseis direcionados à base aérea de Al Udeid — a maior instalação militar dos EUA na região — foram interceptados. O aeroporto da capital catari suspendeu todas as operações.

O Conselho de Cooperação do Golfo, formado por Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Arábia Saudita, Omã, Catar e Kuwait, reuniu-se de emergência. Em comunicado, o bloco condenou os ataques iranianos, classificando-os como violação de soberania e do direito internacional, e advertiu que poderá adotar “todas as medidas necessárias” para proteger sua segurança.

Analistas veem uma ruptura profunda nas relações regionais. Para Frank Gardner, correspondente de Segurança da BBC, uma linha vermelha foi cruzada. Ele avalia que a atual escalada é mais grave e perigosa do que episódios anteriores no Golfo, e que será difícil retomar relações normais com a liderança iraniana após ataques diretos a territórios vizinhos.

Além do impacto militar, o choque é simbólico. Dubai construiu sua imagem como porto seguro para milionários, investidores e influenciadores digitais. Nos últimos anos, a cidade virou refúgio de empresários, celebridades e criadores de conteúdo em busca de estabilidade e baixa tributação.

Agora, vídeos nas redes mostram rastros de fumaça no horizonte e relatos de ansiedade entre moradores e visitantes. O criador britânico Will Bailey publicou imagens de mísseis interceptados próximos ao hotel Fairmont. “Aquilo estava a poucos metros de nós”, afirmou.

A guerra, que antes parecia distante, passou a fazer parte da paisagem de arranha-céus, iates e hotéis cinco estrelas. E, ao atingir aeroportos, portos e áreas residenciais, expôs uma vulnerabilidade inédita em cidades que sempre se venderam como imunes às turbulências do Oriente Médio.