Mensagens compartilhadas em um grupo de WhatsApp que reúne lojistas da Região da 44, em Goiânia, mostram participantes defendendo que pessoas nordestinas e trabalhadores identificados com a esquerda não sejam contratados para atuar no comércio da região. Os comentários ocorreram no domingo (4), durante a apuração da eleição presidencial, e incluem manifestações consideradas discriminatórias contra pessoas de estados como Maranhão, Pará e Piauí.

Em uma das conversas, uma participante afirma que, caso mulheres nordestinas procurassem emprego na região, seriam orientadas a “pedir emprego pro Lula”. Outra integrante concorda com a ideia e defende que essas pessoas fossem informadas de que não conseguiriam trabalho no local por causa da origem e do posicionamento político.

As mensagens foram encaminhadas à imprensa por uma mulher que trabalhou durante aproximadamente quatro anos na Região da 44 e continua integrante do grupo. Ela optou por não ter a identidade divulgada.

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Segundo a ex-funcionária, a preocupação é que manifestações como essas possam refletir em situações concretas de contratação e gerar um ambiente de constrangimento para trabalhadores que sejam de outros estados ou tenham determinada posição política.

“Infelizmente esse pessoal se sente no direito de falar o que quer sem serem expostos. Se sentem confortáveis de falar esse tipo de coisa num grupo de 500 pessoas, imagine numa roda de amigos”, afirmou.

Ela também relatou que, apesar de ser goiana, percebe a presença de pessoas de diferentes estados entre os trabalhadores da região. Na avaliação dela, algumas pessoas poderiam evitar revelar sua origem por medo de sofrer dificuldades para conseguir emprego.

Mensagens citam Maranhão, Pará e Piauí

As manifestações começaram a circular enquanto os integrantes acompanhavam a apuração da eleição presidencial. Em determinado momento, um homem escreveu que o grupo estaria unido em torno do objetivo de “DesPTtizar o Brasil”. A mensagem recebeu reação positiva de outro participante.

Em outra conversa, uma integrante critica pessoas que deixam estados do Nordeste para trabalhar em outras regiões e associa a migração ao resultado eleitoral. A mensagem cita especificamente o Maranhão e afirma que essas pessoas deveriam permanecer em seus estados e levar para lá o presidente e demais representantes políticos nos quais votaram.

O comentário recebeu reações de risadas, palmas e aprovação de outros integrantes do grupo.

Em seguida, uma participante afirma que não contrataria pessoas de Pará, Maranhão, Piauí e de outros estados nordestinos. Na mensagem, utiliza termos ofensivos para se referir à região e declara que essas pessoas não trabalhariam mais em sua loja.

Outro trecho da conversa relaciona diretamente a origem regional à preferência política. Uma integrante defende que mulheres nordestinas sejam avisadas de que não conseguiriam emprego na Região da 44 caso revelassem que são daqueles estados e simpatizantes do PT.

A mensagem também associa trabalhadores nordestinos ao partido político e termina com uma expressão de rejeição ao grupo.

Em outro momento, uma participante relata que uma amiga, proprietária de um restaurante no Pará, não contrataria pessoas que fossem de esquerda. A declaração recebe concordância de outra integrante.

Grupo tem mais de 500 participantes

De acordo com as informações apresentadas à reportagem, o grupo reúne 533 membros e tem como objetivo principal a troca de informações entre lojistas. Entre os assuntos previstos estão valores de aluguel, venda de mobiliário, disponibilidade de lojas e outras questões relacionadas aos negócios da Região da 44.

Apesar disso, as mensagens políticas foram publicadas durante a apuração da eleição presidencial.

Uma participante chegou a questionar a finalidade do grupo e recebeu como resposta que “política está em tudo”. Outra pessoa afirmou que, caso ela estivesse insatisfeita com as manifestações políticas, deveria deixar o grupo.

As conversas também tiveram comentários relacionados a impostos, roubos e dificuldades enfrentadas por microempreendedores.

A situação chama atenção porque a própria descrição do grupo estabelece regras para os integrantes. Entre as orientações está a recomendação para manter um tom respeitoso e limitar as discussões a assuntos relacionados aos negócios.

As regras também orientam os participantes a evitar política e assuntos considerados sensíveis. O texto ainda recomenda que comportamentos inadequados sejam comunicados aos administradores e alerta para o fato de que conversas realizadas pelo WhatsApp podem ter valor jurídico.

Mega Moda diz repudiar manifestações discriminatórias

Procurado pela reportagem, o Mega Moda afirmou que repudia qualquer manifestação de caráter racista, xenofóbico ou discriminatório.

O empreendimento esclareceu, porém, que o grupo em que as mensagens foram publicadas não é um canal oficial do shopping e também não é administrado ou moderado pelo Mega Moda.

Segundo o shopping, manifestações individuais são de responsabilidade de seus respectivos autores. O empreendimento afirmou ainda que eventuais condutas discriminatórias devem ser devidamente apuradas e, quando cabível, responsabilizadas conforme a legislação brasileira.

O Mega Moda também declarou manter compromisso com um ambiente baseado no respeito, na diversidade e na convivência responsável entre as pessoas, independentemente da origem, região, posicionamento político ou qualquer outra característica.

As mensagens divulgadas no grupo foram registradas durante a apuração da eleição presidencial e, segundo a pessoa que encaminhou o material, provocaram preocupação entre trabalhadores que dependem do comércio da Região da 44 para exercer suas atividades.

As manifestações, além de associarem origem regional e posicionamento político à possibilidade de contratação, levantam questionamentos sobre práticas discriminatórias no mercado de trabalho e sobre a responsabilidade dos participantes pelas declarações feitas em ambientes digitais.