Goiás ocupa uma posição estratégica na disputa internacional por terras raras, um grupo de 17 elementos químicos fundamentais para a fabricação de tecnologias modernas. Com reservas expressivas, projetos de mineração em desenvolvimento e uma operação de destaque mundial em Minaçu, o estado passou a atrair a atenção de investidores estrangeiros e a ganhar espaço nas discussões sobre a política mineral brasileira.

O tema também chegou ao debate eleitoral. Os candidatos à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) incluíram propostas relacionadas aos minerais críticos e estratégicos em seus planos de governo, com diferenças sobre a atuação do Estado, a atração de capital estrangeiro e o desenvolvimento da indústria nacional.

As terras raras são utilizadas em produtos como smartphones, televisores, câmeras digitais e equipamentos de iluminação. Embora estejam presentes em pequenas quantidades nesses produtos, alguns de seus elementos são essenciais para aplicações tecnológicas de alto desempenho.

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Minaçu concentra operação de destaque mundial

No norte de Goiás, a Mineração Serra Verde, localizada em Minaçu, é apontada como a única operação fora da Ásia a produzir, em escala comercial, os quatro principais elementos magnéticos utilizados em ímãs de alto desempenho: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

A relevância da operação ganhou ainda mais destaque em abril de 2026, quando a empresa norte-americana USA Rare Earth, que tem participação do governo dos Estados Unidos, anunciou a compra da mina Pela Ema por US$ 2,8 bilhões.

O negócio ampliou a discussão sobre o interesse internacional nas reservas brasileiras e sobre o papel do país no fornecimento de minerais considerados estratégicos para a indústria e a tecnologia.

De acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. O país asiático concentra mais de 60% da produção global e quase 90% do refino desses elementos, o que lhe confere influência significativa sobre a cadeia mundial de fornecimento.

Outros projetos ampliam potencial de Goiás

Além de Minaçu, o estado possui depósitos e projetos de pesquisa mineral que podem ampliar sua participação no setor. A professora Estela Leal, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal de Goiás (FCT/UFG), destaca a presença de iniciativas em diferentes fases de desenvolvimento.

Entre elas está o Projeto Carina, da multinacional Aclara Resources, em Nova Roma. A proposta prevê a implantação de uma fábrica no município, onde os elementos são extraídos. Conforme informações divulgadas pelo Governo de Goiás, o projeto envolve investimento estimado em R$ 2,8 bilhões, dos quais R$ 30 milhões destinados à instalação de uma unidade em Aparecida de Goiânia. A empresa pretende processar aproximadamente 250 toneladas de terras raras.

Outro depósito citado pela pesquisadora fica em Catalão. Para ela, a existência de diferentes áreas de pesquisa e projetos em desenvolvimento reforça a posição do estado no cenário nacional.

A importância econômica de Goiás, porém, não se restringe às terras raras. O estado também tem participação relevante na pesquisa e na produção de outros minerais considerados estratégicos, como cobre, níquel e ouro.

Política estadual prevê incentivos à industrialização

O avanço da atividade mineral também mobilizou o poder público estadual. A Assembleia Legislativa de Goiás aprovou a Política Estadual de Mineração Sustentável de Terras Raras, regulamentada por decreto que estruturou a Autoridade Estadual de Minerais Críticos (AMIC-GO) e previu a criação de Zonas Especiais de Mineração.

Entre as medidas estão incentivos fiscais, como o diferimento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para empreendimentos credenciados que realizem a industrialização e o beneficiamento dos minerais em território goiano.

A proposta busca evitar que Goiás se limite à extração e à exportação de matéria-prima bruta. A intenção é estimular etapas industriais capazes de agregar valor à produção, incluindo a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, motores elétricos e baterias.

As projeções governamentais estimam a possibilidade de criação de até 12 mil empregos diretos em um período de cinco a dez anos. As oportunidades podem envolver profissionais de geologia, engenharia de minas, química, operação industrial e logística internacional.

Disputa geopolítica aumenta importância dos minerais

O interesse pelas terras raras está relacionado à concentração da cadeia produtiva na Ásia, especialmente na China. A professora Estela Leal explica que o domínio chinês envolve não apenas a produção, mas também o processamento dos minerais, etapa fundamental para transformá-los em insumos industriais.

Nesse contexto, países ocidentais buscam diversificar seus fornecedores e reduzir a dependência de uma única região. Goiás aparece como uma alternativa estratégica por suas reservas, pela operação de Minaçu e pelo potencial de expansão de novos projetos.

As terras raras são utilizadas na fabricação de ímãs permanentes empregados em veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos associados à transição energética. Também têm aplicações em tecnologias ligadas à defesa nacional.

Para a pesquisadora, o desafio brasileiro é transformar o potencial geológico em desenvolvimento industrial, científico e tecnológico, ampliando a participação nacional nas etapas mais valorizadas da cadeia produtiva.

O desafio é processar os minerais no Brasil

A extração representa apenas uma parte do processo necessário para transformar as reservas em produtos de maior valor econômico. A cadeia inclui o processamento mineral, a separação química dos elementos, a produção de metais e ligas metálicas e, por fim, a fabricação de componentes tecnológicos.

Segundo Estela Leal, exportar somente o concentrado mineral significa capturar apenas uma parcela do valor gerado pelo setor.

A pesquisadora também destaca a necessidade de ampliar os investimentos em pesquisa científica, especialmente em técnicas de separação química e no desenvolvimento de tecnologias para as etapas industriais posteriores à extração.

A capacidade de realizar essas atividades no Brasil pode influenciar o quanto o país conseguirá aproveitar economicamente suas reservas. O avanço da cadeia produtiva depende, portanto, não apenas da abertura de minas, mas também da estrutura industrial e tecnológica necessária para transformar os recursos naturais em produtos acabados.

Lula defende política nacional para minerais críticos

Em 16 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma proposta que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE).

A medida prevê a criação de um fundo garantidor para estimular investimentos no setor e estabelece um crédito tributário de R$ 5 bilhões para incentivar o processamento e a transformação de minerais em território nacional. O texto também cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE).

Durante o discurso de sanção, Lula criticou o que classificou como tentativas de entregar recursos estratégicos brasileiros ao exterior sem beneficiamento nacional. O presidente afirmou que a soberania brasileira não está à venda e defendeu que a riqueza mineral seja aproveitada em benefício da população.

No debate televisivo realizado antes do segundo turno, Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre a possibilidade de fornecimento de terras raras e minerais críticos aos Estados Unidos. O candidato do PL classificou a pergunta como falsa e enganosa.

Flávio Bolsonaro propõe atração de investimentos

Em março de 2026, durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), Flávio Bolsonaro, então pré-candidato à Presidência, afirmou que o Brasil poderia ajudar os Estados Unidos a reduzir a dependência da China no fornecimento de minerais críticos, especialmente terras raras.

No plano de governo, o candidato defende a agregação de valor no território nacional, conectando as reservas minerais brasileiras à oferta de energia limpa para processar os recursos internamente, em vez de exportar matéria-prima e importar produtos acabados.

A proposta também prevê a atuação do Estado como regulador e coordenador do setor, com medidas voltadas à estabilidade do marco regulatório, à aceleração do licenciamento ambiental e da concessão de direitos minerários, à transparência e à atração de investimentos estrangeiros.

O documento destaca ainda o potencial do Nordeste, região com reservas minerais e capacidade de geração de energia solar e eólica, para receber empreendimentos ligados à cadeia de terras raras.

Proposta de Lula prevê mapeamento e polos industriais

O plano de governo de Lula prevê uma política específica para minerais críticos e terras raras, com o objetivo de organizar as cadeias produtivas, diferenciar os usos tecnológicos e reduzir a exportação de matérias-primas estratégicas sem processamento.

Entre as medidas estão o mapeamento regional, o beneficiamento dos minerais e a agregação de valor para ampliar a inserção soberana do Brasil nas cadeias globais de produção.

O candidato também propõe aproveitar a disponibilidade de energia limpa no Nordeste para atrair indústrias de alto consumo energético, incluindo empreendimentos voltados ao processamento de minerais críticos.

Apesar das diferenças entre os planos, a discussão eleitoral converge para uma questão central: como aproveitar as reservas brasileiras em um mercado internacional marcado pela disputa por recursos estratégicos.

Para Goiás, o desafio é fazer com que o crescimento da mineração resulte também em pesquisa, empregos qualificados, industrialização e desenvolvimento econômico, ampliando os benefícios gerados pelos recursos encontrados em seu território.