As últimas horas de Cláudio Castro no comando do governo do Rio foram tudo, menos protocolares. Nos bastidores, o agora ex-governador chegou a cogitar cancelar a própria renúncia enquanto tentava uma última movimentação para adiar o julgamento no Tribunal Superior Eleitoral, que pode torná-lo inelegível. A decisão final de deixar o cargo só veio depois de um dia inteiro de articulações, consultas e ausência de sinais favoráveis dentro da Corte.

O julgamento em questão trata do caso Ceperj, que investiga o uso da fundação para contratação irregular de cabos eleitorais nas eleições de 2022. Até agora, dois votos já foram dados pela condenação de Castro, incluindo o da relatora Isabel Gallotti. A expectativa do governador era ganhar tempo com um novo pedido de vista, estratégia que já havia sido usada anteriormente por ministros como Kassio Nunes Marques. Sem conseguir essa brecha, aliados próximos recomendaram que ele mantivesse o plano de renúncia.

A saída do cargo não impede uma eventual inelegibilidade, mas muda o jogo jurídico. Sem mandato, Castro deixa de correr o risco de cassação direta, o que, na avaliação de aliados, pode abrir margem para contestar uma eventual punição e manter viva sua intenção de disputar o Senado. Foi uma decisão calculada, tentando preservar capital político em meio a um cenário de alto risco.

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Enquanto buscava fôlego no TSE, Castro também se movimentava no Supremo Tribunal Federal. Uma decisão recente do ministro Luiz Fux alterou regras da eleição indireta que escolherá o chamado governador-tampão, exigindo desincompatibilização com seis meses de antecedência. A mudança bagunçou os planos do grupo político de Castro, que trabalhava com o prazo anterior de apenas 24 horas após a renúncia.

Mesmo assim, o ex-governador tentou reorganizar o tabuleiro até o último minuto. Entre as medidas, articulou a saída de seu braço-direito, Nicola Miccione, da Casa Civil, já mirando sua participação na eleição indireta. Também editou decretos transferindo poderes do futuro governador interino para sua estrutura mais próxima, numa tentativa clara de manter influência sobre decisões estratégicas do estado mesmo após deixar o cargo.

Com a renúncia, quem assume temporariamente é o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, até que a Assembleia Legislativa realize a eleição indireta em 30 dias. Esse processo, porém, promete ser tudo menos previsível. A determinação de voto secreto, também definida por Fux, amplia o risco de traições políticas e dificulta o controle de blocos dentro da Alerj.

Nos bastidores, a disputa pelo mandato-tampão já começou. De um lado, aliados de Castro tentam viabilizar nomes ligados ao seu grupo, como o ex-secretário Douglas Ruas. Do outro, forças políticas rivais se articulam para ocupar o espaço deixado pelo governador. O presidente afastado da Alerj, Rodrigo Bacellar, por exemplo, trabalha para fortalecer candidaturas alternativas, enquanto aliados de Eduardo Paes também entram no jogo.

A depender de uma possível revisão da decisão no STF sobre o prazo de desincompatibilização, o cenário pode mudar novamente nos próximos dias. Caso a regra volte a ser mais flexível, novos nomes ganham força e embaralham ainda mais a disputa. Se for mantida, o leque diminui, mas o nível de tensão política segue alto.

O que se viu nas últimas horas de Castro no poder foi um retrato claro de como política e Justiça caminham juntas em momentos decisivos. Entre tentativas de ganhar tempo, rearranjos internos e movimentos estratégicos, o ex-governador deixou o cargo tentando influenciar o máximo possível o que vem pela frente — mesmo já fora da cadeira principal.