O debate sobre o fim da escala 6x1 e a possível adoção de uma jornada semanal de 36 horas ganhou um novo capítulo com a divulgação de um estudo do FGV Ibre, ligado à Fundação Getulio Vargas. A simulação aponta que, se a mudança for implementada de forma imediata e sem mecanismos de transição, o Brasil pode enfrentar uma redução de 6,2% no Produto Interno Bruto.

O levantamento foi elaborado pelos professores Fernando de Holanda Barbosa Filho e Paulo Peruchetti. A análise considera dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e parte do pressuposto de que a mão de obra é o principal fator de produção, levando em conta tanto o mercado formal quanto o informal.

Segundo o estudo, o custo da hora trabalhada pode subir cerca de 22% em comparação com a jornada atual de 44 horas semanais. Na prática, isso significaria aumento direto nas despesas das empresas, sem garantia de contrapartida em produtividade. O alerta é claro: se a redução de jornada ocorrer de um dia para o outro, o impacto pode se espalhar pela economia com reflexos na renda per capita, no nível de emprego e até na sobrevivência de empresas.

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Hoje, três Propostas de Emenda à Constituição estão em debate no Congresso Nacional. A mais recente, em tramitação na Câmara dos Deputados, propõe a adoção imediata da jornada 4x3, totalizando 36 horas semanais, sem período de transição. Outra proposta na Câmara prevê uma redução gradual das atuais 44 horas ao longo de dez anos, até chegar às 36 horas.

Já no Senado Federal, há uma proposta pronta para votação que estabelece redução imediata para 40 horas semanais, no modelo 5x2, com queda escalonada ao longo de quatro anos até alcançar as 36 horas.

Os impactos variam de setor para setor. Transportes podem registrar queda de 14,2% no valor agregado. Indústria extrativa, 12,6%. Comércio, 12,2%. Serviços industriais de utilidade pública, 10,6%. Serviços de informação e comunicação, 10,5%. Todos os números consideram um cenário sem ganho adicional de produtividade.

E aqui está um ponto sensível: produtividade. Entre 2012 e 2024, o crescimento da produtividade por hora trabalhada no Brasil foi zero, segundo dados do IBGE. A estagnação também marcou o período de 2018 a 2024. Dos 12 segmentos analisados, apenas serviços industriais de utilidade pública, agropecuária, construção e outros serviços apresentaram taxas positivas.

Na prática, isso significa que contar com um salto de eficiência para compensar o aumento de custos é uma aposta arriscada. Mesmo projetando um crescimento de 2% na produtividade por hora, apenas dois dos doze setores conseguiriam neutralizar as perdas estimadas.

No mercado de trabalho, os efeitos também seriam desiguais. Trabalhadores com maior escolaridade — ensino médio completo ou superior — tenderiam a registrar ganho real de salário, já que hoje cumprem jornadas médias próximas de 39 horas semanais. Já trabalhadores com menor nível de instrução, que atualmente já estão perto das 36 horas semanais, teriam impacto menor em termos de carga horária.

Há ainda um ponto delicado no comércio: profissionais que recebem comissão por vendas podem ter redução na remuneração total caso o volume de horas trabalhadas diminua sem aumento proporcional nas vendas.

O estudo também relembra que a Constituição de 1988 reduziu a jornada máxima de 48 para 44 horas semanais. Apesar da mudança significativa na época, não houve ganho consistente de produtividade como compensação estrutural.

O debate sobre qualidade de vida, geração de empregos e modernização das relações de trabalho segue vivo. Mas os números colocam pressão sobre o desenho da transição. Reduzir jornada pode ser um movimento estratégico no longo prazo — desde que venha acompanhado de ganho real de eficiência, inovação e reorganização produtiva. Sem isso, o risco é transformar uma promessa de equilíbrio entre vida e trabalho em um choque econômico imediato.