Uma operação da Polícia Civil de Goiás prendeu dois ex-servidores da Prefeitura de Goiânia suspeitos de envolvimento em um esquema de fraude em licitação para a compra de tinta inseticida utilizada no combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor da Dengue. A investigação aponta irregularidades tanto no processo licitatório quanto na execução do contrato e na fiscalização do serviço. Mandados de busca e apreensão também foram cumpridos na capital goiana, no Distrito Federal e em Valparaíso de Goiás.

De acordo com o delegado Ricardo Pina, responsável pelo caso, as investigações começaram em 2024 e tiveram como foco contratos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano e Social de Goiânia. A polícia identificou a existência de um grupo informal dentro da estrutura administrativa, chamado internamente de “Departamento de Compras 2”, formado por servidores e ex-servidores comissionados. Segundo a apuração, esse núcleo acelerava de forma irregular os processos de licitação, desrespeitando princípios administrativos como transparência e segregação de funções.

Entre as irregularidades apontadas está a compra de cerca de 2.500 latas de tinta inseticida. Cada unidade possui quatro litros, totalizando aproximadamente 10 mil litros do produto. Segundo a polícia, a quantidade adquirida não condizia com a área que deveria ser atendida, que o volume seria suficiente para cobrir cerca de 100 mil metros quadrados. No entanto, a ordem de serviço previa uma metragem até cinco vezes maior, o que indicaria inconsistências no planejamento e possível direcionamento do contrato.

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A investigação também revelou que parte das tintas foi entregue próxima da data de vencimento, o que comprometeria a eficácia do produto. Além disso, auditorias apontaram que parte da aplicação ocorreu em imóveis desativados ou sem utilidade para a administração pública. Entre os locais previstos para uso estavam unidades do Centro de Referência de Assistência Social, centros de capacitação e até cemitérios administrados pelo município.

Segundo a polícia, o contrato investigado ultrapassa R$ 4,4 milhões. Somente a compra das 2.500 latas teria custado cerca de R$ 1.775 por unidade. Diante das suspeitas de irregularidades, os investigadores solicitaram à Justiça o bloqueio de aproximadamente R$ 2,7 milhões, valor estimado do prejuízo aos cofres públicos.

Ao todo, a Justiça autorizou 13 mandados judiciais, sendo 11 de busca e apreensão em diferentes localidades. Além dos ex-servidores públicos, os proprietários da empresa fornecedora das tintas também são investigados pela participação no esquema.

Em nota, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano e Social de Goiânia informou que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações e reforçou compromisso com a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos. o ex-prefeito Rogério Cruz afirmou que não é parte no processo judicial e declarou que não participou da condução dos contratos ou dos procedimentos administrativos citados na investigação.

Os suspeitos poderão responder por crimes como associação criminosa, fraude em contrato administrativo e modificação irregular de contrato público. As investigações seguem em andamento para identificar todos os envolvidos e o destino final dos recursos públicos utilizados no contrato.