Em meio à pior crise financeira de sua história, os Correios anunciaram nesta sexta-feira (6) a venda de imóveis próprios em diversas regiões do país. A medida integra o plano de reestruturação da estatal, que prevê arrecadar até R$ 1,5 bilhão até dezembro de 2026 com a alienação de ativos considerados ociosos.

Os primeiros leilões estão marcados para os dias 12 e 26 de fevereiro e serão realizados de forma totalmente digital, com participação aberta a pessoas físicas e jurídicas. Nesta etapa inicial, 21 imóveis serão ofertados, localizados em 12 estados: Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte e São Paulo.

O portfólio inclui prédios administrativos, galpões logísticos, terrenos, lojas e apartamentos funcionais. Os valores iniciais variam de R$ 19 mil a R$ 11 milhões, de acordo com informações divulgadas pela empresa. Os Correios afirmam que a venda dos imóveis não deve comprometer a prestação de serviços à população e que outros ativos ainda estão em fase de preparação para futuras rodadas de leilão.

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Segundo a estatal, a iniciativa faz parte de um conjunto mais amplo de medidas voltadas à reorganização financeira, redução de custos fixos e recuperação da capacidade de investimento. A empresa reforça que os imóveis colocados à venda não são essenciais às operações.

A alienação de patrimônio ocorre em um contexto de forte deterioração das contas da empresa. Como parte do plano de recuperação, os Correios abriram, no início de 2026, um programa de demissão voluntária (PDV). A expectativa é reduzir o quadro em cerca de 15 mil funcionários, dos atuais 90 mil empregados. O programa também prevê mudanças na estrutura de cargos e revisão de benefícios como plano de saúde e previdência. A empresa ainda não divulgou quantos funcionários aderiram.

A projeção é economizar aproximadamente R$ 2 bilhões por ano a partir de 2027 com as medidas. Dados apresentados pela própria estatal indicam que os gastos com pessoal cresceram de forma significativa nos últimos anos: em 2022, as despesas somaram R$ 15,2 bilhões; em 2024, chegaram a quase R$ 20 bilhões. Atualmente, cerca de 60% da receita da empresa é consumida por salários e benefícios.

Paralelamente, os Correios vêm perdendo espaço no mercado de encomendas. Há seis anos, a estatal detinha cerca de 50% do setor. No fim de 2025, essa participação caiu para aproximadamente 20%, pressionada pela concorrência de empresas privadas mais ágeis e tecnologicamente avançadas.

O plano de reestruturação para 2026 também prevê o fechamento de agências. Até o momento, 121 unidades já foram encerradas, de um total de mil previstas.

Os resultados financeiros refletem o agravamento da situação. Em 2022, o prejuízo foi superior a R$ 700 milhões. Em 2024, o déficit saltou para R$ 2,5 bilhões. O balanço de 2025 ainda não foi fechado, mas a empresa estima um rombo de R$ 10 bilhões.

Para manter as operações, os Correios contrataram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos, dos quais R$ 10 bilhões já foram liberados no início de 2026, com garantias do Tesouro Nacional. Os recursos serão usados para quitar dívidas imediatas e sustentar a operação, mas a estatal admite que pode precisar de mais R$ 8 bilhões ao longo do ano.

No fim de 2025, o presidente da empresa, Emmanoel Rondon, alertou que o prejuízo de 2026 pode chegar a R$ 23 bilhões caso o ciclo de perdas não seja interrompido.

Especialistas avaliam que a estatal enfrenta dificuldades estruturais para competir em um mercado cada vez mais dinâmico. Para o economista Raul Velloso, é necessário reduzir o peso dos gastos para tornar a empresa sustentável. Já Armando Castellar, pesquisador do FGV Ibre, afirma que os Correios estão em uma corrida contra o tempo e defende que o governo considere a privatização como alternativa.

Segundo ele, a falta de agilidade típica de empresas estatais pode inviabilizar a sobrevivência no longo prazo em um setor altamente competitivo.