A morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, desencadeou uma reação em cadeia no oeste do México e abriu um novo capítulo na guerra contra os cartéis. No domingo, poucas horas após a confirmação de que o líder do Cártel Jalisco Nueva Generación, o CJNG, havia morrido, um motim tomou conta do presídio de Ixtapa, em Puerto Vallarta, no estado de Jalisco. O saldo foi a morte de um agente penitenciário e a fuga de 23 detentos.

De acordo com o governo estadual, o complexo foi atacado pelo lado de fora por homens armados que usaram um veículo para derrubar um dos portões da unidade. A investida externa abriu espaço para que presos iniciassem um motim no interior do presídio, com confrontos entre internos e momentos de descontrole generalizado. Após a retomada do controle, as autoridades realizaram a chamada nominal e constataram a ausência de 23 detentos. Até agora, os nomes dos foragidos não foram divulgados, nem há confirmação oficial sobre o grau de periculosidade de cada um.

A fuga ocorreu em meio a uma onda de violência que se espalhou por diferentes regiões do país, especialmente em Jalisco. Após a confirmação da morte de “El Mencho”, foram registrados ataques, confrontos armados e bloqueios. Mais de 70 pessoas morreram nos episódios violentos, entre elas 25 integrantes da Guarda Nacional. Imagens que circularam nas redes sociais mostraram uma coluna de fumaça nas imediações do presídio de Ixtapa, resultado de incêndios e queima de veículos durante os confrontos.

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O impacto ultrapassou o sistema prisional. Companhias aéreas suspenderam temporariamente voos com destino a Puerto Vallarta, e ao menos duas empresas de cruzeiros cancelaram escalas no porto, afetando diretamente o turismo, um dos pilares econômicos da região.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que a situação foi estabilizada após o envio de cerca de 10 mil militares para o oeste do país. Segundo ela, a operação que resultou na morte do chefe do CJNG contou com apoio de inteligência dos Estados Unidos, mas foi executada exclusivamente por forças especiais mexicanas, sem presença de militares americanos em território nacional.

Detalhes divulgados pelas autoridades indicam que “El Mencho” foi localizado em 20 de fevereiro, na região montanhosa de Tapalpa, em Jalisco, após agentes identificarem e seguirem uma mulher apontada como parceira do traficante. Ao chegarem ao local, militares teriam sido recebidos a tiros por seguranças fortemente armados. Quatro integrantes do cartel morreram no confronto, três ficaram feridos, incluindo o próprio líder, que não resistiu aos ferimentos a caminho do hospital. No local, foram apreendidos armamentos de alto poder destrutivo, incluindo lançadores de foguetes capazes de atingir aeronaves e veículos blindados.

A morte de “El Mencho” representa um golpe simbólico e estratégico contra uma das organizações criminosas mais poderosas do país. O CJNG expandiu sua influência nos últimos anos, consolidando rotas de tráfico internacional, ampliando sua presença territorial e diversificando atividades ilícitas. No entanto, especialistas alertam que a eliminação de um líder dessa magnitude costuma gerar disputas internas pela sucessão e pode fragmentar o grupo, aumentando a violência no curto prazo.

O contexto político também pesa. A ofensiva ocorre em meio ao aumento da pressão do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que voltou a defender medidas mais duras contra cartéis mexicanos, classificando-os como organizações terroristas e cobrando ações mais incisivas do governo mexicano. A operação pode reduzir, momentaneamente, a pressão externa, mas não resolve o desafio estrutural.

O México enfrenta um cenário em que cartéis acumulam poder econômico, influência local e armamento sofisticado. A resposta do Estado, ainda que mais coordenada e apoiada por inteligência internacional, esbarra em décadas de enraizamento dessas organizações. A fuga em Puerto Vallarta é um retrato claro desse embate: mesmo diante de uma operação de grande porte, a reação criminosa foi imediata e violenta.

Nos bastidores da segurança pública, a grande incógnita agora é quem assumirá o controle do CJNG. Se houver disputa interna, o país pode assistir a uma nova onda de confrontos entre facções rivais. Se a transição for rápida e centralizada, o cartel pode manter sua estrutura operacional com poucas perdas estratégicas.

O que está em jogo vai além da liderança de uma organização. Trata-se da capacidade do Estado mexicano de recuperar territórios, conter o avanço armado dos cartéis e impedir que cada grande operação termine em mais violência, mais mortes e novas fugas. O episódio de Ixtapa sinaliza que o vácuo de poder deixado por “El Mencho” pode ser tão perigoso quanto sua própria liderança.